Uma lágrima solitária, mas que expressava tudo o que eu estava sentindo, uma dor horrorosa e consumidora, entrelaçada no meu coração. A dor e a sujeira de ter sido enganada e não ter dado ouvidos à verdade. A dor de ser uma tremenda idiota! A dor silenciosa que me corroía por dentro... Mas que fosse a última vez e nunca mais!
~ Sra Baker ~
Fui me deitar para dormir um pouco mais tranquila. Quando a Seunome chegou hoje, um pouco mais cedo que eu esperava, mas ainda assim, eu já estava em casa, queria até fazer uma surpresa para ela... Mas logo que ela colocou o pé dentro de casa percebi o quanto ela estava arrasada, a minha menininha...
Passou por mim, fiz algumas perguntas para ela, mas a única coisa que ela me respondeu foi: Errada, estava eu, errada.
E só.
Depois subiu e se trancou no quarto, eu podia ouvir a dor dela pelo lado de fora... E isso me destruía.
Temi que estivesse de volta na época do quinto ano, quando ela tinha onze anos, quando ela era infeliz...
Mas eu não ia deixar que a minha filha sofresse mais.
Então ele chegou, o garoto.
Fiquei surpresa, principalmente quando ele disse:
Sra. Baker, como está a Seunome?
Pensei imediatamente que ele fosse o problema.
Fiquei até mesmo relutante, mas ele estava preocupado, eu via nos olhos sinceros dele, quando ele dizia: Preciso falar com ela.
E eu respondia: Ela não dá ouvidos nem a mim.
E ele me impressionou dizendo:
Talvez dê a mim.
Minha filha nunca trouxe garoto algum para aqui em casa, nunca me falava muito dos seus namorados, mas eu sabia que ela já havia tido mais de dois. Mas terminava com eles e seguia em frente, nunca a vi chorando depois do quinto ano. Estava sempre alegre, sempre forte...
E então me aparece esse garoto, que ela nunca havia me falado.
Mas minha confusão aumentou quando ela falou:
Nenhum ele fez nada.
Fiquei angustiada, agoniada. O que tinha acontecido? Se o garoto que estava na minha sala de estar não era culpado e não tinha nada a ver com a história, por que ele estaria preocupado com ela? Afinal, o que ele queria? O que a deixava tão triste? Seunome não era disso!
Numa esperança que ela abrisse a porta pra mim, tentei jogar que havia um alguém misterioso que queria vê-la, ou que ao menos fosse o garoto que tinha causado todo o estrago para arrumar tudo de novo.
Parece que deu certo, dei um tempinho à ela e logo ela estava lá, mas logo que vi a cara de surpresa dela ao vê-lo ali eu soube que ele não era o problema, eu tinha visto segundos antes a esperança nos olhos dela que fosse quem tinha a deixado naquele estado, mas não era ele, não era aquele garoto.
Comecei a ficar feliz, ele gostava dela, de verdade, ele gostava da Seunome.
Então resolvi dar "privacidade" a eles. Fingi que subi as escadas, apenas três degraus, depois fui à cozinha e cuidei da lasanha, coloquei no fogo, mas não deixava de ficar espiando de vez em quando.
Logo que saí já voltei e espiei na porta: Seunome estava chorando de novo. Mas dessa vez o garoto a consolava, Zayn era o nome dele... Mas percebi que Seunome apenas o chamava pelo sobrenome, quando o viu disse Malik.
Eu sabia de quem ele era filho, os pais dele tem acordo com o Jerry (pai da Seunome).
Mas quando eu ouvi: Ele tem razão. seguido de um Eu sou uma vadia! Pensei o pior, mas as palavras que seguiram não consolaram somente à Seunome, consolaram a mim também: Você não é. Você não é e não quero que pense nunca que é. Você é boa. Erra como qualquer pessoa, mas não é uma vadia! Nunca fez nada realmente para ele! O Liam está sendo um otário! Ele não tem o direito de falar isso de você. Ele não te conhece. Não sabe a garota maravilhosa e corajosa e forte que você é. Não dê ouvidos pro que ele diz, ele não sabe o que está falando.
E ao mesmo tempo que eu tirava um peso das costas entendia a situação, superficialmente, mas entendia.
Talvez esse Liam fosse o namorado dela, ex provavelmente agora, e os tinha pego juntos. Era só o que poderia ter sido, já que o Zayn havia pedido desculpas para ela.
E provavelmente Seunome pensou que ele fosse dar no pé, assim que haviam sido flagrados, seria a única coisa que faria minha filha pensar que era... essa coisa que eu não queria nem pensar.
Espiei de novo pela porta e os vi ainda abraçados daquela maneira e lembrei de mim e do pai de Seunome, quando eu tinha apenas alguns anos a mais que ela. Mas eu entendia o que aquele abraço significava: Era como se o garoto a protegesse de todo o mundo, era o único lugar que ela se sentia segura, era o único lugar que a reconfortaria. Senti um carinho inexplicável por aquele menino instantaneamente. Ali, fazendo o que eu não podia fazer pela minha filha, os olhos preocupados dele... Eu já o tinha como um filho!
Resolvi realmente dar um pouco de privacidade aos dois, eu devia ter sido mais educada e realmente ter deixado os dois a sós, mas eu estava tão angustiada!
O tempo seguinte foi apenas um silêncio, profundo.
Mas eu sabia que os dois ainda estavam do mesmo jeito.
Terminei a lasanha e deixei ela. Peguei um livro e comecei a ler, pelo menos eu não ia ouvir nada intencionalmente.
Ouvi algumas palavras enfim, depois de mais de meia hora que eu havia parado de espioná-los. E depois mais... risadas?
Não pude evitar e fui espionar de novo...
O Zayn fazia cosquinhas nela, e ela se divertia. Depois eles ainda estavam rindo, pensei que seria a hora perfeita para voltar e chamá-los para comer. Eu realmente queria que o garoto ficasse, eu estava realmente tendo um carinho especial por ele.
E nesse momento de descontração, eu ia conseguir que Seunome comesse!
O garoto me ajudou, e fiquei imensamente grata quando ele logo fez com que Seunome não pudesse recusar a refeição.
E ainda ele sabia como tratar qualquer mulher, e soube me ganhar também.
Foi um jantar muito agradável, depois já estava tarde e ele tinha que voltar para casa, eu não queria ter que deixá-lo partir, queria que ele ainda estivesse conosco mais um pouco, mas estava realmente muito tarde e o que eu seria se o prendesse ali? Se ainda deixasse-o dormir ali? É claro que isso não é comportamento de uma mãe! Eu não poderia permitir!
Mas eu tenho certeza de que se ele tivesse me pedido para ficar, eu teria aceitado de bom grado...
Ah! Mas que garoto! Ele é bem malandrinho! Tratou logo de me ganhar! Mas eu realmente gostava dele, apenas pelo simples fato de Seunome gostar dele também e por ele a fazer feliz!
~ Você on ~
Me olhei no espelho e vi logo o estrago que uma noite mal dormida com frequentes ataques de choro havia causado.
Meu aspecto estava terrível! Eu não ia poder fugir da base e do corretivo hoje.
Levei mais tempo do que o normal para me arrumar, principalmente na maquiagem, já que tive que "refazer" minha pele.
Depois uma sombra leve e um batom claro e discreto e voilá! Eu estava parecendo uma pessoa de novo!
Desci e parei para me despedir da minha mãe.
Ela já não estava mais tão preocupada como tinha estado na noite anterior, a visita do Malik tinha feito um tremendo bem à ela.
Mas as olheiras que desfaziam um pouco do rosto perfeito de minha mãe, linda como sempre, a denunciavam, ela não havia dormido à noite.
Me senti culpada.
Dei um beijo na testa dela antes de sair, deixando uma marca de batom.
E então fui para a escola.
Durante a minha noite em claro, quando eu só dormi depois de exaustão de tanto chorar, eu decidi o que seria daqui para frente.
Agora eu já conhecia o Malik.
E agora eu sabia quem o Liam realmente era, e sinceramente, ele era um monstro!
Não conseguia imaginar como aquele garoto doce do quinto ano tinha se transformado nisso que ele era agora. Não podia ser minha culpa, o que eu tinha feito de errado? Não conseguido falar um "muito obrigada" a ele naquele dia?
Ou será que foi eu não ter sido eternamente grata?
Bem, eu tinha sido, pelo menos até a manhã de ontem.
Até o meio da tarde de ontem.
Até quando ele me chamou de vadia!
Eu não sabia o porque de ele ter me tratado tão mal! Não havia motivos! E eu não entendia por que eu era uma vadia!
Bem, eu me senti uma depois que eu briguei com o Zayn... quer dizer, Malik! Eu me senti uma porque eu havia sido má com ele, e ele foi a pessoa quem me acudiu! Quem me tirou do fundo do poço. Quem estava lá.
Agora eu entendia Maya, só não sabia se Maya me entendia.
Logo na chegada encontrei as meninas. Shana e eu tínhamos a próxima aula juntas, então ela me acompanhou até a sala de espanhol.
Sentamos bem ao fundo, hoje não era um dia típico do qual eu estava imensamente interessada na aula.
__ O que aconteceu? - Shana cochichou.
__ Como assim? - Perguntei fingindo não entender. Dei um sorriso fingido. - Estou ótima!
__ Não, não está. - Shana negou imediatamente.
__ Por que não estaria? - Cochichei de volta.
__ Eu conheço você Seunome, e eu sei diferenciar quando você está bem de quando não está.
Suspirei fundo.
__ Eu não posso te enganar, né?
__ Não. - Ela respondeu um pouco preocupada.
Apenas sorri tristemente para o caderno à minha frente.
__ Não vai me contar o que aconteceu? - Shana insistiu.
__ É uma longa história. - Cochichei.
__ Pra uma amiga eu sempre tenho tempo. - Shana revidou.
Eu não ia conseguir evitá-la.
Shana ia até o fim.
Isso era outra coisa dela, nisso ela se assemelhava à Maya, as duas iam até o fim, mas usavam meios diferentes.
Chris não era assim.
Ela desistia fácil, era só a coisa ficar um pouco mais difícil e puf! Ela caía fora.
__ Na hora do almoço. - Respondi. - Não dá pra contar aqui.
Shana assentiu.
Ela sabia que no fim ia acabar me fazendo contar mesmo, não tinha que temer que eu fugisse, ela sempre daria o jeito dela de me fazer falar.
À mesa do almoço, íamos ter que dar um jeito de sairmos escondidas dali para conversar, talvez uma desculpa de ir ao banheiro.
E então o Harry passou pela nossa mesa e cumprimentou Shana que abriu um enorme sorriso.
Eu tinha me esquecido que eles estavam fazendo o trabalho de história juntos. Tinha ficado tão aturdida com os acontecimentos recentes em minha vida, problemas e mais problemas, na realidade um problema só, e uma solução. Os dois com nome e sobrenome.
__ Me esqueci de perguntar, como foi o trabalho? - Pergunte pra Shana.
__ Está indo muito bem. - Ela respondeu com um sorriso. - O Harry é muito camarada. - Depois o rosto dela ficou sério. - Mas você não vai fugir de mim! - Shana falou baixinho.
Assenti de leve.
Terminamos rápido o nosso lanche e Shana me pediu para acompanhá-la até o banheiro, como eu havia imaginado. Ao invés disso seguimos até uma sala de aula vazia.
Instantes antes de entrar eu vi o Malik, que veio apressado em minha direção.
__ Como você está? - Ele perguntou antes de notar Shana. - Ah! Oi. - Ele disse tentando disfarçar seu súbito interesse em saber como eu estava.
__ Oi. - Shana respondeu desconfiada.
__ Sem problemas. - Falei forçando um sorriso. - Eu estou bem.
O Malik cerrou os olhos, ele certamente não acreditou na minha mentira descarada.
Shana também percebeu a desconfiança dele e isso a atiçou a ficar mais desconfiada ainda.
Eu ia ter que explicar tudo à Shana mesmo logo em seguida, talvez começando pela minha "paixão" ao Liam, mas eu duvidava de que ela já não desconfiasse disso. Shana era observadora, nisso ela se diferenciava de Maya e de Chris.
__ Pelo menos vou ficar bem. - Falei pro Malik. Sabia que isso o tranquilizaria mais do que uma mentira de "eu estou bem".
Ele ainda pareceu desconfiado, mas pareceu que ele entendeu a minha resposta como se Shana pudesse ouvir.
__ Fiquei preocupado, quer dizer, você parecia bem, mas eu sabia que ia se lembrar de tudo depois que eu saísse.
E isso bastou para que a confusão nos olhos de Shana se formassem.
Shana não era do tipo indiscreta, mas eu pude ver que ela queria respostas.
__ Estou bem.
Relutante o Malik saiu, mas antes disso me lançou um olhar de "depois eu falo com você".
Shana me puxou para dentro da sala.
__ O que está acontecendo?
__ Eu vou explicar tudo! - Rebati. - Mas você vai ter que escutar desde o início.
__ Certo. - Shana suspirou.
__ Tudo começa no quinto ano. - Falei.
__ No quinto ano? - Shana perguntou confusa.
__ É. - Respondi. - No quinto ano...
Expliquei tudo o que aconteceu no quinto ano, sobre como Liam me defendeu e uma compreensão passou pelo rosto de Shana.
__ Então é por isso que você gosta dele?
É, eu estava certa, Shana havia reparado.
__ Não, quer dizer, era por isso. - Suspirei. - É isso que eu vou esclarecer agora.
Pensei várias formas de dizer isso, a pior parte, a que vinha a seguir.
__ Ontem eu estava na casa do Malik, - Shana me lançou um olhar desconfiado. - fazendo o trabalho! - Me apressei em explicar. - Quando o Liam chegou lá. Shana, você precisava ver! Ele surtou! Gritou comigo! Me chamou... me chamou de vadia! Foi horrível, mas o pior é que eu não sei porquê.
Shana cerou o cenho.
__ Como assim? Assim do nada?
__ É. - Falei.
Shana ficou pensativa por alguns instantes e depois perguntou.
__ Mas e o que o Malik acabou de dizer? De você lembrar tudo depois que ele saísse?
Suspirei.
__ É que depois de tudo o que o Liam me disse, do jeito que me tratou eu acabei saindo da casa do Malik, nem pensei em mais nada, eu estava muito atordoada... Depois o Malik apareceu lá em casa, levou as minhas coisas que eu havia me esquecido lá.
__ Só isso? - Shana perguntou com os olhos cerrados. Ela sabia que eu estava escondendo coisas.
__ Ele jantou lá, me fez companhia por um tempo.
Shana ainda estava desconfiada, mas não pôde me fazer mais perguntas porque o sinal soou, mas eu sabia que na primeira oportunidade ela me interrogaria de novo.
Não vi Shana de novo até a hora da saída.
Quando estava arrumando as minhas coisas no meu armário fui surpreendida por uma voz.
__ Oi! - Niall falou.
__ Oi. - Respondi.
__ Ainda está de pé hoje o nosso encontro? - Perguntou enquanto a figura do Malik aparecia atrás dele.
__ Nosso encontro? - Perguntei perdida e olhei para o Malik. Com todos os acontecimentos eu tinha me esquecido completamente que tinha marcado um encontro com o Niall.
__ Sim. - Ele respondeu sorrindo. - Não vai me dizer que esqueceu.
__ Que isso! - Falei rindo.
__ E então, tudo certo? - Ele perguntou.
Olhei para o Malik que assentiu me incentivando.
__ Claro. - Respondi sorrindo ainda.
__ Te pego as sete. - Ele falou sorrindo pra mim e eu retribuí o sorriso. Nem passou pela minha cabeça se ele sabia o meu endereço.
Assim que o Niall saiu o Malik se aproximou mais.
__ Eu devia mesmo? - Perguntei me referindo ao encontro.
__ Creio que sim, vai ser bom pra você esquecer. - Mas não pude deixar de notar os olhos tristes dele.
__ Então tá. - Falei. - Tchau. - Disse enquanto me virava de costas para ir embora, mas o Malik falou:
__ Espera! Não quer uma carona?
Sorri.
__ Tudo bem! - Falei. Eu sabia que minha mãe não ia se importar, e eu realmente não estava muita afim de ir andando.
Malik me deixou em casa e eu fui direto pro meu quarto me preparar psicologicamente para o encontro da noite.
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